Renato Russo - 45 anos

Renato Russo, morto em 1996, completaria 45 anos neste domingo, dia 27 de março.

Para Renato, não havia praia ou motivo para alegria. Brasília era (era?) puro tédio. Seus amigos, como ele, eram filhos de diplomatas. Todos já haviam morado em outros países e, naquela época - final dos anos 70, início dos 80 - a influência principal era o punk. Russo era uma invenção. "Eu sou fã do Fernando Pessoa e, quando descobri que ele tinha heterônimos, eu inventei logo os meus. Eu 'tinha' uma banda chamada Forty Second Street Band (...) Eu era um cara chamado Eric Russel. Achava esse nome a coisa mais linda do mundo (...) Depois, tinha o Rousseau, o Jean-Jacques: eu gostava daquela coisa do nobre selvagem... Daí, tinha o Henri Rousseau, um pintor que eu amo, e o Bertrand Russel, que eu acho um cara muito legal". Em casa, Russo era Junior e, claro, tinha o nome do pai, Renato Manfredini.

Renato costumava preservar sua intimidade. No sétimo CD da Legião Urbana, A Tempestade, último lançado com Renato ainda vivo, aparece uma forte referência aos pais e a sua solidão na canção (como ele também preferia e não música) Esperando por mim: Acho que você não percebeu / Que o meu sorriso era sincero / Sou tão cínico às vezes / O tempo todo / Estou tentando me defender / Digam o que disserem / O mal do século é a solidão / Cada um de nós imerso em sua própria arrogância / Esperando por um pouco de afeição (...) Hoje à tarde foi um dia bom / Saí pra caminhar com meu pai / Conversamos sobre coisas da vida / tivemos um momento de paz (...) Meu pai sempre esteve esperando por mim / E o que disserem / Minha mãe sempre esteve esperando por mim. Antes disso somente - se é que se pode usar esta palavra ao se referir a uma das mais marcantes canções criadas por Renato - em Pais e Filhos havia tido uma referência tão forte. A letra é uma das mais estudadas e analisadas. Ela é construída com falas de três personagens: pais, filhos e uma terceira pessoa. São frases comuns ditas por pais e filhos, aparentemente sem uma sequência lógica, ligadas pela fala da terceira pessoa.

Outro ponto marcante nesta canção é a referência ao suicídio, tema incomum na música brasileira: Ninguém sabe o que aconteceu / Ela se jogou da janela do quinto andar / Nada é fácil de entender". O tema pode parecer incomum na música brasileira mas é recorrente na obra de Renato Russo. Clarrise, de Uma outra estação (álbum da Legião lançado após a morte de Renato) não havia sido incluída em CDs anteriores porque temiam que pudesse causar uma onda de suicídios. Não fala diretamente, mas sugere: E Clarice está trancada no banheiro / E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete / Deitada no canto, seus tornozelos sangram. Dezesseis, de A Tempestade (de longe, o mais melancólico de todos os álbuns da Legião) também sugere, mais declaradamente, o suicídio de Johnny no final da letra: E até hoje, quem se lembra / Diz que não foi o caminhão / Nem a curva fatal / E nem a explosão / Johnny era fera demais / Pra vacilar assim / E o que dizem é que foi tudo / Por causa de um coração partido. A versão de Metrópole (gravada no Dois) dos tempos do Aborto Elétrico é a mais punk: Faça um favor a si mesmo: cometa suicídio / Se jogue do andar mais alto de um dos seus edifícios. A versão gravada é completamente diferente.

Na verdade, a morte era uma constante tanto nas atitudes como nas letras de Renato, que fazia parte de uma geração depressiva, criada durante a ditadura militar. Na hora que foi permitido botar a boca no mundo, havia tanto represado que o resultado foi o que se viu. O mais interessante é como isto aconteceu. Ao contrário de seus antecessores e pensadores que os influenciaram, os sentimentos colocados nas s letras de Renato não ficaram presos aos livros e a grupos de intelectuais. Eles explodiram no palco, em uma cena pop rock que fez toda uma geração - e continua fazendo na seguinte - decorar cada verso escrito pelos dois. No caso de Renato, de uma maneira ainda mais forte, que se assemelhava ao fanatismo religioso. O que Renato dizia no palco e nos discos era pura contestação, mas não era contestado. Até isto ele contestou: Vamos celebrar a estupidez humana / A estupidez de todas as nações / O meu país e sua corja de assassinos / Covardes, estupradores e ladrões / Vamos celebrar a estupidez do povo / Nossa polícia e televisão / Vamos celebrar nosso governo / E nosso estado que não é nação (...)Vamos comemorar como idiotas / A cada fevereiro e feriado (...)Vamos celebrar a aberração / De toda a nossa falta de bom senso (...) Já que também podemos celebrar / A estupidez de quem cantou esta canção.

Os shows eram verdadeiros cultos. Nenhum será esquecido mas alguns, em especial, deixaram marcas mais fortes. O de Brasília, no final dos anos 80, quando um maluco pulou no pescoço de Renato e, depois, o cantor desafiou os seguranças, "pára agora, solta ele! Tu levas um microfone na cabeça, meu irmão". Depois o quebra-quebra foi generalizado e que o era esperado como a volta dos filhos pródigos, acabou virando uma grande confusão. O de Natal (RN), em meados de 90, onde também sobraram críticas à técnica e depois do qual, segundo reza a lenda, Renato teria reunido a banda e contado que estava com AIDS.

Renato não falava de sua doença. Era portador do vírus desde 1989 (quando Cazuza já estava muito debilitado e gravando, em cadeiras de roda e até deitado, o álbum Burguesia) e em 1995, em entrevistas, continuava negando. Renato morreria no ano seguinte, no dia 11 de outubro de 1996.

Em 1997, viriam O último solo (de Renato) e Uma outra estação (da Legião), com sobras de estúdio. Em 98, a gravadora lançou Mais do Mesmo, uma coletânea. Em 1999, o Acústico, gravado em 1992 e onde se percebe o discurso panfletário sobre o cuidado nas relações sexuais, encampado por Renato desde que soube da doença. Em seguida, foi lançado o duplo Como é que se diz eu te amo, registro de um show ao vivo no qual o sarcasmo de Renato é o que há de mais valioso. Novidades mesmo, com músicas inéditas, só se esperam para daqui a uma década quando o filho de Renato tiver idade para decidir o que fazer com o espólio do cantor. Até lá, como o próprio Renato Russo parecia profetizar já no disco Dois, Mas já disse que não tem / E você ainda quer mais / Por que você não me deixa em paz? (...) Sempre mais do mesmo / Não era isso que você queria ouvir?

Excerto do texto Malditos Arianos, de Sandro Fortunato



Escrito por Editor do Memória Viva às 17h32
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