:: Alceu Penna e suas famosas garotas

A revista O Cruzeiro foi lançada com estardalhaço em novembro de 1928. Seu proprietário, Assis Chateaubriand, apoiou Getúlio na Revolução de 30. Dois anos depois, rompeu com Vargas e sofreu as conseqüências. Dentre elas, teve a circulação de O Cruzeiro proibida.

Foi justamente nessa época que chegou ao Rio de Janeiro, então capital federal, um menino de 17 anos, vindo de Curvelo, Minas Gerais. Seu nome era Alceu de Paula Penna e sua idéia era vencer na vida como desenhista. Não pensou pequeno e, logo que chegou na capital, foi procurar seu grande ídolo, J. Carlos, na redação de O Malho. Foi elogiado, mas avisado que não poderia ser aproveitado ali.

O primeiro veículo importante a publicar seu trabalho foi O Jornal, também de Assis Chateaubriand. Com isso, ele acaba tendo acesso à redação de O Cruzeiro, que pertencia ao mesmo grupo. Um dia, Alceu Penna se enche de coragem e mostra ao secretário de redação da revista, Accioly Netto, alguns trabalhos que ele vinha fazendo para que servissem como capa de O Cruzeiro.

Accioly estava implementando mudanças na revista. As edições de carnaval e o público feminino seriam privilegiados. Logo, Penna estaria fazendo capas para O Cruzeiro e, a partir daí, começa a colecionar sucessos e prêmios em todos os concursos que se dispõe a participar.

No final da década de 1930, as pin-up girls já haviam invadido a imprensa americana e Accioly resolve encomendar a Alceu Penna uma série de pin-ups brasileiras. O desenhista já tinha interesse no assunto e assim surgiram As Garotas do Alceu, um sucesso que atravessou duas décadas e meia.

“Nos amávamos as Garotas do Alceu. Durante anos, todas as moças bonitas deste país – dos fins da tarde nas calçadas da Praia de Icaraí, em Niterói, e das filas do Cine Metro, no Rio, aos footings das pracinhas do interior – se penteavam, se sentavam, gesticulavam, sorriam e se vestiam como as Garotas do Alceu. E nos encantavam e nos faziam sonhar. Tanto que, muitos de nós – quase todos os que se casaram naquela época – nos tornamos, um pouco, genros do Alceu”, explicaria, muitos anos mais tarde, outro mineiro, também desenhista e que também passou por O Cruzeiro: Ziraldo.

Alceu produziu quadrinhos, desenhou moda e fantasias de carnaval, influenciou tendências publicitárias e o design das páginas de jornais e revistas. “Tornou-se o primeiro e único brasileiro a publicar na revista americana Esquire; ensinou Carmen Miranda a gingar com a saia e escolheu as roupas do Bando da Lua; vestiu Marta Rocha no Concurso Miss Universo, em 1954; fez os figurinos dos espetáculos dos cassinos e dos teatros cariocas; e levou a moda brasileira para todo o planeta com os figurinos que ele mesmo criou para os monumentais eventos da Rhodia na década de 1960”, como se lê no livro Alceu Penna e as Garotas do Brasil, de Gonçalo Junior (Cluq – Clube dos Quadrinhos, 2004).

O livro apresenta mais de duzentas imagens e conta que, entre 1938 e 1941, Penna adaptou para o tablóide O Globo Juvenil, de Roberto Marinho, clássicos da literatura mundial como O sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare; Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol; Um yankee na corte do Rei Artur, de Mark Twain; O fantasma de Canterville, de Oscar Wilde; e O Mágico de Oz, de L. Frank Baum.

Alceu ainda produziu quadrinhos na década de 1950, na revista feminina A Cigarra, também de Assis Chateaubriand, em parceria com Álvaro Armando. Os dois criaram o personagem Marido de Madame.

Alceu Penna faleceu em janeiro de 1980, poucos dias depois de ter completado 65 anos.

>> Veja mais Garotas do Alceu no Flog Memória Viva



Escrito por Editor do Memória Viva às 20h03
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:: J. Carlos, o cronista do lápis

Da mesma forma que é necessário recorrer às fotos de Malta e Ferrez para conhecer o Rio do início do século XX, é imprescindível buscar o trabalho de J. Carlos para entender o carioca da primeira metade daquele século.

José Carlos de Brito e Cunha nasceu no dia 18 de junho de 1884. Quando estreou na imprensa brasileira, na revista O Tagarela, tinha apenas 18 anos. Em 1908, ainda um rapaz, estava presente, desde o primeiro número, em uma revista que marcaria época: Careta. Uma de muitas. Como caricaturista, ilustrador ou editor, passou por O Malho, Século XX, Leitura Para Todos, Eu Sei Tudo, Revista da Semana, Ilustração Brasileira, O Tico-Tico, Fon-Fon, A Avenida, O Filhote da Careta, O Juquinha, D. Quixote, A Cigarra, A Vida Moderna, Revista Nacional, O Cruzeiro, Cinearte, A Noite, Lanterna, A Nação, A Hora, Beira-Mar...

Em 1921, J. Carlos assumiu a direção das publicações da empresa O Malho, afastando-se a contragosto da Careta. Nessa época, Álvaro Moreyra, seu companheiro de trabalho, escreveu:

“Um dia, decerto, no começo do próximo século, o Rio de Janeiro não possuirá mais a carioca; as raparigas das margens da Guanabara não se distinguirão das raparigas do resto do Planeta: idênticas preocupações, atitude iguais, o mesmo modo de vestir, gravidade, pessimismo... Nesse dia, um curioso de coisas do passado encontrará, nas páginas de uma revista, as figuras de J. Carlos; encontrará a melindrosa, que ele inventou e que constituiu o modelo das nossas lindas contemporâneas.

O Rio de Janeiro de antigamente há de ressuscitar na expressão ingênua e irônica dos olhos que viram os primeiros aeroplanos; nas bocas talhadas à feição de beijos; no ritmo ondulante da carne envolta em sedas leves, luminosas, fugidias. E o curioso sentirá saudades do velho tempo que não conheceu... Velho tempo! Bom tempo! E compreenderá o sentido das praias, povoando-as das imagens guardadas no traço sutil do artista e verá, tal qual não vira antes, a luz das manhãs, a sombra dos crepúsculos, o luar das noites altas. Lenta, a maravilha despercebida se revelará. A cidade romântica, erma das suas transeuntes, voltará à fascinação abandonada... O ente que olhar, daqui a cem anos, as obras-primas de J. Carlos, poderá viver a vida que andamos vivendo...”

J. Carlos amava o Rio, de onde saiu poucas vezes. Isso talvez tenha pesado em sua resposta negativa ao convite de Walt Disney para que trabalhasse em seus estúdios. Disney esteve no Brasil em 1941, lançando o filme Fantasia. Dentre as diversas homenagens que recebeu, havia uma exposição reunindo desenhos dos melhores caricaturistas brasileiros. Em um almoço oferecido pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Disney fez questão de sentar-se ao lado de J. Carlos e o convidou a fazer parte de sua equipe nos Estados Unidos. J. Carlos recusou. Algum tempo depois, enviou a Walt Disney o desenho de um papagaio vestido com o uniforme da Força Expedicionária Brasileira, abraçado ao Pato Donald... É preciso contar o resto?

Foram quase cinqüenta anos de trabalho. Sóbrio, sisudo, pontual, bom pai de família, era completamente diferente do típico profissional de imprensa de sua época. Isso durou até 29 de setembro de 1950. Vítima de um edema cerebral, tombou sobre sua mesa de trabalho na redação da Careta. Morreu, três dias depois, aos 66 anos de idade.

O cronista do lápis, que contou a História e imortalizou os tipos de sua cidade, foi assim lembrado por Genolino Amado: “Realmente, no espírito de J. Carlos parece ter habitado o espírito do Rio. Talvez não possa existir harmonia mais perfeita de alguém com a sua terra, com a sua gente (...) E não poderíamos imaginar tendo nascido noutra cidade. Aquele que pretendia somente graça acabou fazendo História”.


>> Veja ilustrações de J. Carlos no Flog Memória Viva

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Escrito por Editor do Memória Viva às 01h45
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:: Sai a primeira parcial para o Top 3

Já foi divulgada a primeira parcial com os 5 sites mais votados em cada categoria para o Top 3 do iBest. O Memória Viva está entre os cinco, rumo ao Top 3, na categoria Arte & Cultura.

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Escrito por Editor do Memória Viva às 03h18
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:: A verdadeira história da Madeira-Mamoré

A história da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré contada em Mad Maria, série da Rede Globo, começa em 1911, no governo do Marechal Hermes da Fonseca, oitavo presidente do Brasil. Mas a verdadeira história da Madeira-Mamoré – a Estrada do Inferno, como ficou conhecida – começa em meados do século XIX.

Em 1870, o Coronel George Earl Church, aventureiro e geógrafo norte-americano, conseguiu a título pessoal o que o governo da Bolívia tentava havia anos: uma concessão do Governo Imperial, dada por D. Pedro II, para que se construísse uma ferrovia em Rondônia.

Em 1877, Church fecha contrato com a Phillip & Thomas Collins, da Filadélfia, tradicional construtora de ferrovias da Pensilvânia. A empresa começou a enviar homens – americanos, irlandeses e italianos – para o Brasil no início do ano seguinte. Em junho, dos 550 homens que trabalhavam na construção da ferrovia em Santo Antônio, 260 estavam com malária.

A 4 de julho, dia da Independência Americana, acendiam-se as fornalhas da primeira locomotiva, a Coronel Church. Em 117 dias de trabalho foram feitos 3 quilômetros de vias provisórias e 800 metros de permanentes. O engenheiro-chefe da expedição, Bird, já estava com a saúde seriamente abalada e voltou para os Estados Unidos. A esta altura, dos 700 homens vindos dos Estados Unidos, cerca de 200 podiam manter-se em pé. Vencidos os seis primeiros meses, prazo estipulado pelos contratos, começou a debandada dos estrangeiros. Além da malária, os índios também matavam os intrusos. Em setembro, dos homens vindos da Filadélfia, só restavam 150. Em outubro, trabalhadores brasileiros entram em ação. Chegam a Santo Antônio, 325 cearenses. 

Até maio de 1879, a Phillip & Thomas Collins havia gasto meio milhão de dólares na obra. Seus prejuízos totais chegavam a 800 mil dólares, sem qualquer compensação. Vinte e cinco por cento dos americanos que se incorporaram na empresa morreram. Um índice de mortalidade duas vezes e meia superior ao da Guerra de Secessão.

Em 1882, nenhuma empresa estrangeira tinha qualquer interesse na obra. Várias expedições brasileiras foram enviadas ao local, mas o assunto foi esquecido e só retomado em 1903. Por força de um acordo internacional entre Brasil e Bolívia – acordo que anexou o Acre ao território brasileiro – o governo retomava seu compromisso com a construção da ferrovia.

Em 1906, foi constituída a The Madeira-Mamoré Railway Co. São escassos e falhos os documentos existentes a respeito da construção da estrada entre 1907 e 1912, quando foi concluída. Durante este último período, mais de 30 mil doentes foram atendidos no Hospital da Candelária, em Santo Antônio. Acredita-se que 16 mil pessoas morreram durante toda a história da construção da Ferrovia Madeira-Mamoré.

Em 1972, a Madeira-Mamoré foi desativada.

MAD MARIA – O historiador Manoel Rodrigues Ferreira, autor do livro A Ferrovia do Diabo, que relata a história da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, entrou com um pedido de medida liminar na Vara Federal de São Paulo requerendo a proibição de veiculação da minissérie Mad Maria. Segundo, Ferreira, a emissora mostraria uma minissérie que, além de não ser verdade histórica, foi obtida pelo poder da corrupção, já que o governo do Estado de Rondônia investiu, segundo o próprio governador, Ivo Cassol (PSDB), R$ 1,5 milhão.

Além da costumeira falta de compromisso histórico das produções dos núcleos de dramaturgia, os críticos de TV, que elogiaram o início da série, temem que a história se transforme em um folhetim banal, a exemplo de outros trabalhos do gênero. A produção de Mad Maria custou à Globo 7 milhões de reais.

FOTOSVeja fotos da Madeira-Mamoré, feitas pelo repórter Jorge Ferreira para a revista O Cruzeiro, em 1959, no Flog Memória Viva.



Escrito por Editor do Memória Viva às 19h21
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