:: A história do "cecê"
Qualquer um com mais de 30, em qualquer lugar do Brasil, já ouviu algo do tipo “Huuum, que cheirinho de cecê!” ou “Vai tomar um banho para tirar esse cecê”.
Cecê, todo mundo sabe, é fedor no corpo. Mas de onde tiraram essa palavra? Veja este anúncio do lendário sabonete Lifebuoy: “Nada de C.C. comigo...” Abaixo da destacada sigla, seu significado: “Cheiro de Corpo”.
“Cecê” – em vez de “c.c.” – “é fato gráfico recente”, segundo o Houaiss. Recente em termos etimológicos. Existe desde 1987.
Foi a partir da campanha do sabonete Lifebuoy que apareceu a palavra cecê. “C.C” virou “cecê” pelo mesmo processo de lexicalização que fez “LP” (Long Play) virar Elepê.
Há um texto do escritor João Ubaldo Ribeiro intitulado “Essas mulheres de hoje em dia” (outubro de 1999), no qual ele diz que “o Lifebuoy, que estigmatizava com a ameaça de CC ( iniciais de “cheiro de corpo”, para informação de vocês, jovens insensatos, que acham que a palavra “cecê” deve ter vindo do latim ou do inglês)...” Mas o termo vem mesmo do inglês. A sigla é uma tradução do original: “B.O.”, que significa Body Odor.
Essa campanha agressiva começou nos Estados Unidos com historietas que mostravam como uma garota bonitinha não era tirada para dançar numa festa ou como o “cavalheiro” achava melhor escutar em outra sala as músicas de uma garota ao piano. Tudo por causa do “B.O.”.
E se você encontrar por aí algum texto ou alguém dizendo que o termo surgiu na década de 50, diga à pessoa que ela está equivocada. Os dicionários Aurélio e Houaiss datam o aparecimento de cecê – a palavra, não o fato em si – da década de 40, no que estão certíssimos. A primeira propaganda que ilustra este texto é de uma O Cruzeiro de 1947.
Escrito por Editor do Memória Viva às 17h21
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:: Crimes, jornalismo e História
Você viu o Linha Direta Justiça, na última quinta de setembro? Aquele que reprisou o caso da Fera da Penha. Eu trabalho com preservação da memória. Vivo revirando a vida de muita gente. Às vezes, gente que foi muito famosa e está esquecida; em outras, gente que gostaria de ser completamente esquecida. Linha Direta Justiça, segundo o anunciado, uma “série jornalística...”, aborda casos antigos. Todos já prescritos. A Fera da Penha cometeu um crime terrível. Matou uma criança de 4 anos - Tânia, na foto - e ateou fogo ao corpo. Foi condenada à pena máxima: 30 anos. Saiu com 15, por bom comportamento. Nunca havia feito nada parecido antes. Nunca fez nada parecido depois. Isso foi em 1960. A mulher que ficou conhecida como a Fera da Penha tinha 22 anos e descobriu que o namorado (pai de Tânia) era casado. Enlouqueceu e resolveu tirar do namorado o que ele mais amava: a filha. Ela foi libertada há quase 40 anos. Trabalhou, dedicou-se à atividades filantrópicas. Hoje tem 65 anos. Pergunto: você acha certo jogar uma história dessas em horário nobre, no canal de TV mais assistido do país, quando as partes envolvidas - ré confessa que pagou o estipulado pela Lei e parentes da garota assassinada - se recusam a falar sobre o assunto e não participam do programa? Imagine que VOCÊ fosse um dos personagens dessa história.
Enquanto você pensa, vou dar outra informação. Esse programa já havia sido exibido há exatos 11 meses. Foi reprisado porque o que estava para ser exibido - também sem consentimento ou participação de qualquer envolvido - foi impedido de ir ao ar. Também falava de um caso famoso, ocorrido há mais de 50 anos, que envolve uma morte, no qual o acusado também cumpriu pena... O que querem expondo um senhor que hoje tem 75 anos, que nunca cometeu um ato ilícito antes do episódio em questão, tampouco depois de solto e que, juram muitos, nem foi o culpado? Eu conversei com ele há poucos dias. O que querem expondo a família da vítima que guarda até hoje a dor de ter perdido um ente querido? Você já perdeu alguém muito amado? Em condições trágicas? Gosta de ficar falando sobre isso? Também conversei com familiares da vítima.
Que caso é esse? Quem são as pessoas? Não tenho direito algum de dizer. A não ser que elas permitam. Posso garantir que todas estão cansadas desse jornalismo sensacionalista, dos urubus que ficam voando ao redor da desgraça alheia. Essas histórias são muito maiores que a história pessoal de cada um dos envolvidos. Mas nem por isso alguém, alguma empresa ou veículo de comunicação pode se apoderar dela.
É preciso tratar pessoas como pessoas. Não como personagens. Estes são matéria para escritores, que podem manipular as histórias como bem quiserem. Jornalista lida com gente de verdade. Antes de mais nada, é preciso ter respeito.
Escrito por Sandro Fortunato às 08h19
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