:: Chico Xavier: a história por trás da reportagem de
Há três anos, enquanto o Brasil comemorava o
pentacampeonato mundial de futebol, Chico Xavier deixou este
mundo. Mineiro de Pedro Leopoldo, filho de João Cândido
Xavier e de Maria João de Deus, deixou mais de 400
obras psicografadas e 25 milhões de exemplares vendidos, em mais de 70 anos de
atividade.
Um dos mais polêmicos momentos da vida de Chico aconteceu
em 1944. A viúva e os três filhos do escritor Humberto
de Campos moveram um ação contra ele. Como titulares dos direitos
autorais, queriam explicações sobre as cinco obras “ditadas por Humberto Campos
a Chico Xavier” sem que eles recebessem nada por isso.
Se a Justiça negasse a autenticidade da obra, Chico
estaria sujeito a pagar indenização por perdas e danos e poderia ser preso por
falsidade ideológica. Se reconhece as obras como de Humberto de Campos, estaria
atestando a existência de vida após a morte.
A imprensa alimentou o caso e a dupla mais famosa do
jornalismo brasileiro foi até Pedro Leopoldo entrevistar Chico Xavier.
Percebendo que não seriam atendidos, David Nasser e
Jean Manzon, de O Cruzeiro, disseram ser
jornalistas estrangeiros para conseguir a
matéria. Se os espíritos existissem, avisariam Chico da
farsa.
Ao final do encontro, Chico autografou alguns livros com
os quais presenteou os repórteres. Feito o serviço, trataram de sair logo da
cidade. A matéria tomou 10 páginas da edição de 12 de agosto de
1944. Chico ficou apavorado. Aquilo poderia prejudicá-lo ainda
mais.
Trinta anos depois, em uma entrevista ao jornal carioca
O Dia, David Nasser definiria Chico Xavier como
“o maior remorso da minha vida”. Ele contou que dois dias
depois do encontro, enquanto escrevia a matéria, já de madrugada, Jean Manzon
ligou para ele:
- David, você trouxe aquele livro que o homem nos
ofereceu? - Claro que sim. - Pois bem, abra-o na primeira página e leia a
dedicatória.
O jornalista correu para o livro e leu: “Ao irmão
David Nasser, oferece Emmanuel”.
Segundo Nasser, ele, Manzon e o motorista fizeram um
pacto de silêncio sobre o episódio e a matéria foi publicada sem que a
dedicatória do guia espiritual de Chico Xavier fosse mencionada.
Escrito por Editor do Memória Viva às 22h23
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:: Site reproduz entrevista histórica de Lula
O site Para Lula ler na cama, que está sendo lançado esta semana, apresenta a última entrevista de Lula, momentos antes da prisão durante a histórica greve de 41 dias em 1980.
A entrevista foi originalmente publicada na revista O Cruzeiro de 30 de abril de 1980. Naquela época, o título já não pertencia aos Diários Associados. A revista era editada, no Rio de Janeiro, por Alexandre von Baumgarten.
Quando foi feita, o PT – Partido dos Trabalhadores havia acabado de ser criado e o sindicalista Lula dizia não ter pretensões de se candidatar a nada. Hoje, 25 anos depois e com Lula presidente, a entrevista serve como documento histórico destacando as mudanças do país e também da vida pessoal do entrevistado.
Para Lula ler na cama não é um site de oposição ao atual governo federal nem de críticas ao presidente. Como dito em seu editorial, trata-se de “um ato de desagravo ao nosso país”. Pensado em meados de 2003, só agora, em junho de 2005, os site se torna realidade.
O nome foi inspirado no livro de David Nasser, Para Dutra ler na cama, de 1947. Nasser dizia na apresentação do livro: “Dizem que as tragédias do povo não chega aos ouvidos do homem que está no poder. Dizem que ele ignora as proporções bárbaras a que chegou esta vida que o povo está vivendo”. Nos dias de hoje, com ajuda da Internet, Para Lula ler na cama acredita ser mais fácil fazer com que isso chegue a quem está no poder.
Em sua versão de lançamento, o site apresenta ainda um depoimento do Velho da Praça – um homem que fica nas ruas de Brasília lembrando aos motoristas e pedestres os antigos valores do Partido dos Trabalhadores, uma área de notícias e outras sugestões de leitura para o presidente.
Para Lula ler na cama – www.paralula.com.br
Escrito por Editor do Memória Viva às 22h07
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:: Memória Viva de Carlos Lacerda

A produção do site sobre Carlos Lacerda já foi iniciada. Em pesquisa feita junto aos freqüentadores do Memória Viva no ano passado, o nome de Lacerda foi o mais lembrado – espontaneamente – para que ganhasse um site.
Jornalista, escritor, empresário e político, Carlos Lacerda foi o primeiro governador da Guanabara e, talvez, o último dos grandes nomes da política brasileira capaz de inflamar paixões através de um discurso. O nariz aquilino, os olhos vivos e a voz que assustava os adversários – para ficarmos nas explicações mais leves – lhe valeram o apelido de “o Corvo”, dado por seus desafetos.
Também ficou conhecido como Demolidor de presidentes. Foi pivô da morte de Getúlio, e dos afastamentos de Café Filho, Jânio e Jango. Passou os últimos nove anos de sua vida com seus direitos políticos cassados pelo regime que ajudou a criar com o golpe de 64 e do qual viria a se tornar um dos principais opositores, formando a Frente Ampla com Juscelino Kubitschek e João Goulart.
O site Memória Viva de Carlos Lacerda pretende mostrar suas várias facetas: o político, o jornalista, o escritor e o empresário. No momento, mais de 100 imagens do arquivo pessoal de Lacerda estão sendo trabalhadas. O site apresentará também artigos, entrevistas e cartas. A previsão é de que ele seja disponibilizado em meados de julho.
Escrito por Editor do Memória Viva às 00h38
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:: Actas Diurnas a partir de junho
A partir de junho, Memória Viva começa a ampliar os sites biográficos já existentes em seu acervo. Dentre as primeiras novidades a serem implantadas, estão as Actas Diurnas de Luís da Câmara Cascudo. Atualmente, 20 delas podem ser encontradas no site na seção Livros. Uma nova crônica será disponibilizada a cada semana.
Logo abaixo, a Acta Diurna de 13 de junho de 1947.
Dize-me o que comes...
Todas as vezes que viajo para o interior do Estado vou dando “alteração” nos cardápios oficiais. Recuso servi-me das trapalhadas fingidamente elegantes e peço os pratos simples, tradicionais e saborosos que não aparecem na mesa e ficam lá dentro, como servos reais e fortes, substituídos momentaneamente pelos empregados anêmicos e amarelinhos mas muito bem vestidos.
Peço carne de sol assada, farofa de cebola, carneiro, os doces que foram as delícias dos sesmeiros do século XVII, doces de palmatória, de leite, tapioca de côco polvilhada de canela, baba-de-moça, doce de laranja com cravo dentro, sabores que têm uma história e uma responsabilidade na manutenção da força física do sertanejo e sua participação na economia nacional do Nordeste. Cada país possui sua cozinha que é uma fisionomia. Nós comemos um prato em casa e fingimos comer outro num banquete. Essa hipocrisia findará como findam todas as convenções sustentadas pela mentira da civilização. Banquete será um dia que com a comida razoável e gostosa que amamos, e não aqueles trocinhos sem identificação que passam sujando os pratos e justificando a homenagem ao Homem que fica presidindo e mastigando em seco.
Não vou agora até a revolução ao cardápio do banquete. Chamo apenas a atenção para a necessária e urgente valorização da nossa cozinha e a coragem nacional de exibi-la e oferecê-la sem a ocultar e esconder como se fosse pecado mortal contra o bom gosto.
Entre um resto de peixe frio com o molho amarelo e pegagento da maionese e uma tora de carne do sertão, gorda, macia, grossa, assada na hora, não há duas atitudes compatíveis com o paladar nordestino. Um churrasco, que tem história real no passado continental, uma feijoada completa, o cozido com todos os pertences, o peixe cozido com pirão, vatapá que traz todos os vícios e virtudes da grande Bahia, são elementos constantes de uma civilização, traços indisfarçáveis de uma nacionalidade, com o puchero uruguaio, o cocido espanhol, a polenta napolitana, o porridge da Escócia, o bacalhau à portuguesa, o borsch russo, a sexa sueca, o cuscús árabe, a tortilha mexicana, o tofu do Japão, knackebrood da Finlândia, o bife inglês, a salada francesa.
Um povo que defende os seus pratos nacionais, defende o território. Quem disse? Um patriota português pouco entusiasta, Fialho de Almeida...
Dize-me o que comes e direi se és realmente homem do teu país!
Escrito por Editor do Memória Viva às 21h32
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Renato Russo, morto em 1996, completaria 45 anos neste domingo, dia 27 de março.
Para Renato, não havia praia ou motivo para alegria. Brasília era (era?) puro tédio. Seus amigos, como ele, eram filhos de diplomatas. Todos já haviam morado em outros países e, naquela época - final dos anos 70, início dos 80 - a influência principal era o punk. Russo era uma invenção. "Eu sou fã do Fernando Pessoa e, quando descobri que ele tinha heterônimos, eu inventei logo os meus. Eu 'tinha' uma banda chamada Forty Second Street Band (...) Eu era um cara chamado Eric Russel. Achava esse nome a coisa mais linda do mundo (...) Depois, tinha o Rousseau, o Jean-Jacques: eu gostava daquela coisa do nobre selvagem... Daí, tinha o Henri Rousseau, um pintor que eu amo, e o Bertrand Russel, que eu acho um cara muito legal". Em casa, Russo era Junior e, claro, tinha o nome do pai, Renato Manfredini.
Renato costumava preservar sua intimidade. No sétimo CD da Legião Urbana, A Tempestade, último lançado com Renato ainda vivo, aparece uma forte referência aos pais e a sua solidão na canção (como ele também preferia e não música) Esperando por mim: Acho que você não percebeu / Que o meu sorriso era sincero / Sou tão cínico às vezes / O tempo todo / Estou tentando me defender / Digam o que disserem / O mal do século é a solidão / Cada um de nós imerso em sua própria arrogância / Esperando por um pouco de afeição (...) Hoje à tarde foi um dia bom / Saí pra caminhar com meu pai / Conversamos sobre coisas da vida / tivemos um momento de paz (...) Meu pai sempre esteve esperando por mim / E o que disserem / Minha mãe sempre esteve esperando por mim. Antes disso somente - se é que se pode usar esta palavra ao se referir a uma das mais marcantes canções criadas por Renato - em Pais e Filhos havia tido uma referência tão forte. A letra é uma das mais estudadas e analisadas. Ela é construída com falas de três personagens: pais, filhos e uma terceira pessoa. São frases comuns ditas por pais e filhos, aparentemente sem uma sequência lógica, ligadas pela fala da terceira pessoa.
Outro ponto marcante nesta canção é a referência ao suicídio, tema incomum na música brasileira: Ninguém sabe o que aconteceu / Ela se jogou da janela do quinto andar / Nada é fácil de entender". O tema pode parecer incomum na música brasileira mas é recorrente na obra de Renato Russo. Clarrise, de Uma outra estação (álbum da Legião lançado após a morte de Renato) não havia sido incluída em CDs anteriores porque temiam que pudesse causar uma onda de suicídios. Não fala diretamente, mas sugere: E Clarice está trancada no banheiro / E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete / Deitada no canto, seus tornozelos sangram. Dezesseis, de A Tempestade (de longe, o mais melancólico de todos os álbuns da Legião) também sugere, mais declaradamente, o suicídio de Johnny no final da letra: E até hoje, quem se lembra / Diz que não foi o caminhão / Nem a curva fatal / E nem a explosão / Johnny era fera demais / Pra vacilar assim / E o que dizem é que foi tudo / Por causa de um coração partido. A versão de Metrópole (gravada no Dois) dos tempos do Aborto Elétrico é a mais punk: Faça um favor a si mesmo: cometa suicídio / Se jogue do andar mais alto de um dos seus edifícios. A versão gravada é completamente diferente.
Na verdade, a morte era uma constante tanto nas atitudes como nas letras de Renato, que fazia parte de uma geração depressiva, criada durante a ditadura militar. Na hora que foi permitido botar a boca no mundo, havia tanto represado que o resultado foi o que se viu. O mais interessante é como isto aconteceu. Ao contrário de seus antecessores e pensadores que os influenciaram, os sentimentos colocados nas s letras de Renato não ficaram presos aos livros e a grupos de intelectuais. Eles explodiram no palco, em uma cena pop rock que fez toda uma geração - e continua fazendo na seguinte - decorar cada verso escrito pelos dois. No caso de Renato, de uma maneira ainda mais forte, que se assemelhava ao fanatismo religioso. O que Renato dizia no palco e nos discos era pura contestação, mas não era contestado. Até isto ele contestou: Vamos celebrar a estupidez humana / A estupidez de todas as nações / O meu país e sua corja de assassinos / Covardes, estupradores e ladrões / Vamos celebrar a estupidez do povo / Nossa polícia e televisão / Vamos celebrar nosso governo / E nosso estado que não é nação (...)Vamos comemorar como idiotas / A cada fevereiro e feriado (...)Vamos celebrar a aberração / De toda a nossa falta de bom senso (...) Já que também podemos celebrar / A estupidez de quem cantou esta canção.
Os shows eram verdadeiros cultos. Nenhum será esquecido mas alguns, em especial, deixaram marcas mais fortes. O de Brasília, no final dos anos 80, quando um maluco pulou no pescoço de Renato e, depois, o cantor desafiou os seguranças, "pára agora, solta ele! Tu levas um microfone na cabeça, meu irmão". Depois o quebra-quebra foi generalizado e que o era esperado como a volta dos filhos pródigos, acabou virando uma grande confusão. O de Natal (RN), em meados de 90, onde também sobraram críticas à técnica e depois do qual, segundo reza a lenda, Renato teria reunido a banda e contado que estava com AIDS.
Renato não falava de sua doença. Era portador do vírus desde 1989 (quando Cazuza já estava muito debilitado e gravando, em cadeiras de roda e até deitado, o álbum Burguesia) e em 1995, em entrevistas, continuava negando. Renato morreria no ano seguinte, no dia 11 de outubro de 1996.
Em 1997, viriam O último solo (de Renato) e Uma outra estação (da Legião), com sobras de estúdio. Em 98, a gravadora lançou Mais do Mesmo, uma coletânea. Em 1999, o Acústico, gravado em 1992 e onde se percebe o discurso panfletário sobre o cuidado nas relações sexuais, encampado por Renato desde que soube da doença. Em seguida, foi lançado o duplo Como é que se diz eu te amo, registro de um show ao vivo no qual o sarcasmo de Renato é o que há de mais valioso. Novidades mesmo, com músicas inéditas, só se esperam para daqui a uma década quando o filho de Renato tiver idade para decidir o que fazer com o espólio do cantor. Até lá, como o próprio Renato Russo parecia profetizar já no disco Dois, Mas já disse que não tem / E você ainda quer mais / Por que você não me deixa em paz? (...) Sempre mais do mesmo / Não era isso que você queria ouvir?
Excerto do texto Malditos Arianos, de Sandro Fortunato
Escrito por Editor do Memória Viva às 17h32
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:: Alceu Penna e suas famosas garotas
A revista O Cruzeiro foi lançada com estardalhaço em novembro de 1928. Seu proprietário, Assis Chateaubriand, apoiou Getúlio na Revolução de 30. Dois anos depois, rompeu com Vargas e sofreu as conseqüências. Dentre elas, teve a circulação de O Cruzeiro proibida.
Foi justamente nessa época que chegou ao Rio de Janeiro, então capital federal, um menino de 17 anos, vindo de Curvelo, Minas Gerais. Seu nome era Alceu de Paula Penna e sua idéia era vencer na vida como desenhista. Não pensou pequeno e, logo que chegou na capital, foi procurar seu grande ídolo, J. Carlos, na redação de O Malho. Foi elogiado, mas avisado que não poderia ser aproveitado ali.
O primeiro veículo importante a publicar seu trabalho foi O Jornal, também de Assis Chateaubriand. Com isso, ele acaba tendo acesso à redação de O Cruzeiro, que pertencia ao mesmo grupo. Um dia, Alceu Penna se enche de coragem e mostra ao secretário de redação da revista, Accioly Netto, alguns trabalhos que ele vinha fazendo para que servissem como capa de O Cruzeiro.
Accioly estava implementando mudanças na revista. As edições de carnaval e o público feminino seriam privilegiados. Logo, Penna estaria fazendo capas para O Cruzeiro e, a partir daí, começa a colecionar sucessos e prêmios em todos os concursos que se dispõe a participar.
No final da década de 1930, as pin-up girls já haviam invadido a imprensa americana e Accioly resolve encomendar a Alceu Penna uma série de pin-ups brasileiras. O desenhista já tinha interesse no assunto e assim surgiram As Garotas do Alceu, um sucesso que atravessou duas décadas e meia.
“Nos amávamos as Garotas do Alceu. Durante anos, todas as moças bonitas deste país – dos fins da tarde nas calçadas da Praia de Icaraí, em Niterói, e das filas do Cine Metro, no Rio, aos footings das pracinhas do interior – se penteavam, se sentavam, gesticulavam, sorriam e se vestiam como as Garotas do Alceu. E nos encantavam e nos faziam sonhar. Tanto que, muitos de nós – quase todos os que se casaram naquela época – nos tornamos, um pouco, genros do Alceu”, explicaria, muitos anos mais tarde, outro mineiro, também desenhista e que também passou por O Cruzeiro: Ziraldo.
Alceu produziu quadrinhos, desenhou moda e fantasias de carnaval, influenciou tendências publicitárias e o design das páginas de jornais e revistas. “Tornou-se o primeiro e único brasileiro a publicar na revista americana Esquire; ensinou Carmen Miranda a gingar com a saia e escolheu as roupas do Bando da Lua; vestiu Marta Rocha no Concurso Miss Universo, em 1954; fez os figurinos dos espetáculos dos cassinos e dos teatros cariocas; e levou a moda brasileira para todo o planeta com os figurinos que ele mesmo criou para os monumentais eventos da Rhodia na década de 1960”, como se lê no livro Alceu Penna e as Garotas do Brasil, de Gonçalo Junior (Cluq – Clube dos Quadrinhos, 2004).
O livro apresenta mais de duzentas imagens e conta que, entre 1938 e 1941, Penna adaptou para o tablóide O Globo Juvenil, de Roberto Marinho, clássicos da literatura mundial como O sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare; Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol; Um yankee na corte do Rei Artur, de Mark Twain; O fantasma de Canterville, de Oscar Wilde; e O Mágico de Oz, de L. Frank Baum.
Alceu ainda produziu quadrinhos na década de 1950, na revista feminina A Cigarra, também de Assis Chateaubriand, em parceria com Álvaro Armando. Os dois criaram o personagem Marido de Madame.
Alceu Penna faleceu em janeiro de 1980, poucos dias depois de ter completado 65 anos.
>> Veja mais Garotas do Alceu no Flog Memória Viva
Escrito por Editor do Memória Viva às 20h03
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:: J. Carlos, o cronista do lápis
Da mesma forma que é necessário recorrer às fotos de Malta e Ferrez para conhecer o Rio do início do século XX, é imprescindível buscar o trabalho de J. Carlos para entender o carioca da primeira metade daquele século.
José Carlos de Brito e Cunha nasceu no dia 18 de junho de 1884. Quando estreou na imprensa brasileira, na revista O Tagarela, tinha apenas 18 anos. Em 1908, ainda um rapaz, estava presente, desde o primeiro número, em uma revista que marcaria época: Careta. Uma de muitas. Como caricaturista, ilustrador ou editor, passou por O Malho, Século XX, Leitura Para Todos, Eu Sei Tudo, Revista da Semana, Ilustração Brasileira, O Tico-Tico, Fon-Fon, A Avenida, O Filhote da Careta, O Juquinha, D. Quixote, A Cigarra, A Vida Moderna, Revista Nacional, O Cruzeiro, Cinearte, A Noite, Lanterna, A Nação, A Hora, Beira-Mar...
Em 1921, J. Carlos assumiu a direção das publicações da empresa O Malho, afastando-se a contragosto da Careta. Nessa época, Álvaro Moreyra, seu companheiro de trabalho, escreveu:
“Um dia, decerto, no começo do próximo século, o Rio de Janeiro não possuirá mais a carioca; as raparigas das margens da Guanabara não se distinguirão das raparigas do resto do Planeta: idênticas preocupações, atitude iguais, o mesmo modo de vestir, gravidade, pessimismo... Nesse dia, um curioso de coisas do passado encontrará, nas páginas de uma revista, as figuras de J. Carlos; encontrará a melindrosa, que ele inventou e que constituiu o modelo das nossas lindas contemporâneas.
O Rio de Janeiro de antigamente há de ressuscitar na expressão ingênua e irônica dos olhos que viram os primeiros aeroplanos; nas bocas talhadas à feição de beijos; no ritmo ondulante da carne envolta em sedas leves, luminosas, fugidias. E o curioso sentirá saudades do velho tempo que não conheceu... Velho tempo! Bom tempo! E compreenderá o sentido das praias, povoando-as das imagens guardadas no traço sutil do artista e verá, tal qual não vira antes, a luz das manhãs, a sombra dos crepúsculos, o luar das noites altas. Lenta, a maravilha despercebida se revelará. A cidade romântica, erma das suas transeuntes, voltará à fascinação abandonada... O ente que olhar, daqui a cem anos, as obras-primas de J. Carlos, poderá viver a vida que andamos vivendo...”
J. Carlos amava o Rio, de onde saiu poucas vezes. Isso talvez tenha pesado em sua resposta negativa ao convite de Walt Disney para que trabalhasse em seus estúdios. Disney esteve no Brasil em 1941, lançando o filme Fantasia. Dentre as diversas homenagens que recebeu, havia uma exposição reunindo desenhos dos melhores caricaturistas brasileiros. Em um almoço oferecido pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Disney fez questão de sentar-se ao lado de J. Carlos e o convidou a fazer parte de sua equipe nos Estados Unidos. J. Carlos recusou. Algum tempo depois, enviou a Walt Disney o desenho de um papagaio vestido com o uniforme da Força Expedicionária Brasileira, abraçado ao Pato Donald... É preciso contar o resto?
Foram quase cinqüenta anos de trabalho. Sóbrio, sisudo, pontual, bom pai de família, era completamente diferente do típico profissional de imprensa de sua época. Isso durou até 29 de setembro de 1950. Vítima de um edema cerebral, tombou sobre sua mesa de trabalho na redação da Careta. Morreu, três dias depois, aos 66 anos de idade.
O cronista do lápis, que contou a História e imortalizou os tipos de sua cidade, foi assim lembrado por Genolino Amado: “Realmente, no espírito de J. Carlos parece ter habitado o espírito do Rio. Talvez não possa existir harmonia mais perfeita de alguém com a sua terra, com a sua gente (...) E não poderíamos imaginar tendo nascido noutra cidade. Aquele que pretendia somente graça acabou fazendo História”.
>> Veja ilustrações de J. Carlos no Flog Memória Viva

Escrito por Editor do Memória Viva às 01h45
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:: Sai a primeira parcial para o Top 3
Já foi divulgada a primeira parcial com os 5 sites mais
votados em cada categoria para o Top 3 do iBest. O Memória Viva está
entre os cinco, rumo ao Top 3, na categoria Arte &
Cultura.
Se você ainda não votou, veja aqui como é rápido e fácil. E
você ainda concorre a um Peugeot 206.
Escrito por Editor do Memória Viva às 03h18
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:: A verdadeira história da Madeira-Mamoré
A
história da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré contada em
Mad Maria, série da Rede Globo, começa em 1911, no
governo do Marechal Hermes da Fonseca, oitavo presidente do Brasil. Mas a
verdadeira história da Madeira-Mamoré – a Estrada do Inferno, como ficou
conhecida – começa em meados do século XIX.
Em 1870, o Coronel George Earl Church,
aventureiro e geógrafo norte-americano, conseguiu a título pessoal o que o
governo da Bolívia tentava havia anos: uma concessão do Governo Imperial, dada
por D. Pedro II, para que se construísse uma ferrovia em
Rondônia.
Em 1877, Church fecha contrato com a Phillip
& Thomas Collins, da Filadélfia, tradicional construtora de
ferrovias da Pensilvânia. A empresa começou a enviar homens – americanos,
irlandeses e italianos – para o Brasil no início do ano seguinte. Em junho, dos
550 homens que trabalhavam na construção da ferrovia em Santo Antônio,
260 estavam com malária.
A 4 de julho, dia da Independência Americana, acendiam-se
as fornalhas da primeira locomotiva, a Coronel Church. Em 117 dias de
trabalho foram feitos 3 quilômetros de vias provisórias e 800 metros de
permanentes. O engenheiro-chefe da expedição, Bird, já estava com a saúde
seriamente abalada e voltou para os Estados Unidos. A esta altura, dos 700
homens vindos dos Estados Unidos, cerca de 200 podiam manter-se em pé. Vencidos
os seis primeiros meses, prazo estipulado pelos contratos, começou a debandada
dos estrangeiros. Além da malária, os índios também matavam os intrusos. Em
setembro, dos homens vindos da Filadélfia, só restavam 150. Em outubro,
trabalhadores brasileiros entram em ação. Chegam a Santo Antônio, 325
cearenses.
Até maio de 1879, a Phillip & Thomas Collins havia
gasto meio milhão de dólares na obra. Seus prejuízos totais
chegavam a 800 mil dólares, sem qualquer compensação. Vinte e cinco por cento
dos americanos que se incorporaram na empresa morreram. Um índice de mortalidade
duas vezes e meia superior ao da Guerra de Secessão.
Em 1882, nenhuma empresa estrangeira tinha qualquer
interesse na obra. Várias expedições brasileiras foram enviadas ao local, mas o
assunto foi esquecido e só retomado em 1903. Por força de um acordo
internacional entre Brasil e Bolívia – acordo que anexou o Acre ao território
brasileiro – o governo retomava seu compromisso com a construção da
ferrovia.
Em 1906, foi constituída a The Madeira-Mamoré
Railway Co. São escassos e falhos os documentos existentes a respeito
da construção da estrada entre 1907 e 1912, quando foi concluída. Durante este
último período, mais de 30 mil doentes foram atendidos no Hospital da
Candelária, em Santo Antônio. Acredita-se que 16 mil pessoas morreram durante
toda a história da construção da Ferrovia Madeira-Mamoré.
Em 1972, a Madeira-Mamoré foi
desativada.
MAD MARIA – O historiador Manoel
Rodrigues Ferreira, autor do livro A Ferrovia do
Diabo, que relata a história da construção da ferrovia
Madeira-Mamoré, entrou com um pedido de medida liminar na Vara Federal de São
Paulo requerendo a proibição de veiculação da minissérie Mad Maria.
Segundo, Ferreira, a emissora mostraria uma minissérie que, além de não ser
verdade histórica, foi obtida pelo poder da corrupção, já que o governo do
Estado de Rondônia investiu, segundo o próprio governador, Ivo Cassol (PSDB), R$
1,5 milhão.
Além da costumeira falta de compromisso histórico das
produções dos núcleos de dramaturgia, os críticos de TV, que elogiaram o início
da série, temem que a história se transforme em um folhetim banal, a exemplo de
outros trabalhos do gênero. A produção de Mad Maria custou à Globo 7
milhões de reais.
FOTOS – Veja fotos da
Madeira-Mamoré, feitas pelo repórter Jorge Ferreira
para a revista O Cruzeiro, em 1959, no Flog Memória Viva.
Escrito por Editor do Memória Viva às 19h21
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:: Flog Rio Antigo

Para homenagear a cidade de São Sebastião do Rio
de Janeiro, que completa 440 anos em 1o
de março deste ano, o site Memória
Viva está lançando uma nova área
denominada Flog Rio
Antigo. São mais de 500
imagens registradas por Marc Ferrez,
Augusto Malta, George Leuzinger, E. A.
Mortimer e outros fotógrafos.
Marc
Ferrez – a foto acima é dele – nasceu no Rio em 7 de dezembro
de 1843. Fotografou não só o Rio, mas todo o Brasil, durante 60
anos. Era especializado em vistas panorâmicas, mas soube também
retratar os tipos humanos. Sua série de vendedores ambulantes feita por volta de
1895 chama atenção. Ferrez os fotografava onde os encontrasse. Além da máquina,
carregava uma lona que colocava atrás dos fotografados, improvisando um estúdio
ao ar livre.
Augusto
Malta nasceu no dia 14 de maio de 1864 em Alagoas. Foi para o Rio aos 24 anos e
fez de tudo um pouco: foi guarda-livros, teve uma casa de molhados, vendeu
fazendas (tecidos) por amostras, visitando sua freguesia montado numa bicicleta.
Foi nessa época que um amigo lhe propôs trocar a bicicleta por uma
máquina fotográfica. Malta já tinha 36 anos. Na nova função, tomou
contato com o prefeito Pereira Passos que, admirando seu
trabalho, criou para ele, em julho de 1903, o cargo de fotógrafo municipal. A
partir daí, Malta acompanhou, dia a dia, o crescimento do Rio de
Janeiro.
Cinco fotos serão disponibilizadas por semana, uma por
dia, de segunda a sexta. As imagens são acompanhadas por textos
explicativos e mostram o Rio em seus tempos de capital
federal, crescendo e chamando a atenção do mundo por suas belezas
naturais e suas tendências cosmopolitas.
Para fazer essa viagem, é
só clicar aqui.
Escrito por Editor do Memória Viva às 22h16
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:: Torquato Neto - 60 anos
O texto que segue é de autoria da publicitária Mayra Cunha, do blog Milk Shake. Torquato Neto era primo direto de seu pai, o jornalista Paulo José Cunha. A reprodução foi autorizada pela autora.
Existirmos - a que será que se destina?
Hoje é aniversário de nascimento (e morte) do poeta Torquato Neto, meu primo.
Torquato foi um poeta daqueles de vida curta. Sua obra publicada se resume a um único livro, Os Últimos Dias de Paupéria, que está pra ser reeditado há anos e nunca sai. E tem muita coisa inédita espalhada ainda por aí. Eu mesma não tenho um exemplar do livro. Qualquer dia desses me faço de doida e roubo do papai ou do Zélder!! Risos.
No dia de seu aniversário de 28 anos, Torquato saiu para comemorar com a esposa, o filho de 2 anos e os amigos. Ao voltar pra casa, no Rio de Janeiro, esperou todos irem dormir, se trancou no banheiro e, literalmente, abriu o gás. Ficou lá escrevendo até não poder mais. Morreu numa madrugada do ano de 1972.
Muitos o tem como genial. E foi mesmo. Nome importante do movimento Tropicalista, é o autor de letras de músicas que o povo canta sem nem saber que são dele. Soy louco por ti, América, Geléia Geral e Go Back são algumas só pra não deixar de citar. Foi poeta e letrista de marca maior. Um teresinense que morava no Rio e era chamado de baiano, por sempre andar com Caetano, Tom Zé e Gil (aliás, li outro dia que foi com quem o Gil fez mais parcerias). E adoraaaava cajuína. Agora sim eu cheguei ao ponto que eu queria chegar...
Certo dia, depois de muitos anos de sua morte, Caetano Veloso foi fazer um show em Teresina, no Piauí. Como sempre fazia, ligou pro pai do Torquato (que eu chamo de Vovô Heli, por ser meu padrinho querido) dizendo que gostaria de encontrá-lo. O suposto diálogo foi esse (óbvio que eu vou escrever do meu jeito, né? Não faço a mínima idéia de como essa conversa se deu de fato):
- Oi, Caetano, meu filho (ele chama todo mundo de meu filho, deve ter chamado o Caetano também), venha almoçar aqui em casa.
E lá se foi Caetano almoçar na casa da tia avó mais fofa que eu já tive: Vovó Saló (mãe de Torquato). Foi recebido com todas as honras piauienses e falou que gostaria de experimentar a famosa cajuína. Disse que Torquato falava demais nisso. Que era a melhor bebida que existia no mundo (pra quem não sabe do que se trata, é uma espécie de suco de caju que não é travoso e não leva uma gota de água. O líquido é tirado todinho da fruta... diliça!!).
Depois do almoço e de muita conversa, Caetano foi descansar numa rede (claro!) antes de voltar pro hotel. Vovô Heli saiu pra trabalhar, mas antes pegou uma rosa da roseira que ficava na frente da casa (affe! Como eu me arrebentei naqueles espinhos quando era criança!!!) e colocou em cima da mesa, ao lado dele. Quando acordou, viu a rosa e não se fez de rogado. Pouco tempo depois compôs Cajuína dedicada ao vovô Heli. (Que fofo!!!):
Existirmos - a que será que se destina? Pois quando tu me deste a rosa pequenina Viram a rosa aí, gente?? Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina Quem é o homem lindo?? Vovô Heli!! Um copo de cajuína pra quem acertou! Do menino infeliz não se nos ilumina E o menino?? Outro copo pra quem disse Torquato!! Dessa vez, gelado! Tampouco turva-se a lágrima nordestina Apenas a matéria vida era tão fina E éramos olharmo-nos, intacta retina: A cajuína cristalina em Teresina.
Lindo, não? Pois é. Essa é a história que um dia minha família me contou lá em Teresina. Nem sei se os detalhes são esses mesmos. Mas entendi assim e aí vai a minha interpretação. Posso ter mudado pequenos detalhes que não interferem no final das contas.
Dizem as más línguas que vovô Heli ainda guarda o papel com a letra da música escrita à mão por Caetano. Vovó Saló já foi se encontrar com o filho há alguns anos. E ele, se estivesse vivo até hoje, estaria completando 60 anos. Imaginem o que a memória cultural desse país não perdeu, já que este homem produziu como um louco somente por 28 anos. O lance é aproveitar o que ele deixou.
É isso aí. Deu até saudade da família, do Piauí e do vovô Heli. Taí, vou tomar uma bela de uma cajuína hoje em homenagem a todo mundo!!
Tim Tim!
Beijinhos saudosos.
Escrito por Editor do Memória Viva às 22h44
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:: A história do "cecê"
Qualquer um com mais de 30, em qualquer lugar do Brasil, já ouviu algo do tipo “Huuum, que cheirinho de cecê!” ou “Vai tomar um banho para tirar esse cecê”.
Cecê, todo mundo sabe, é fedor no corpo. Mas de onde tiraram essa palavra? Veja este anúncio do lendário sabonete Lifebuoy: “Nada de C.C. comigo...” Abaixo da destacada sigla, seu significado: “Cheiro de Corpo”.
“Cecê” – em vez de “c.c.” – “é fato gráfico recente”, segundo o Houaiss. Recente em termos etimológicos. Existe desde 1987.
Foi a partir da campanha do sabonete Lifebuoy que apareceu a palavra cecê. “C.C” virou “cecê” pelo mesmo processo de lexicalização que fez “LP” (Long Play) virar Elepê.
Há um texto do escritor João Ubaldo Ribeiro intitulado “Essas mulheres de hoje em dia” (outubro de 1999), no qual ele diz que “o Lifebuoy, que estigmatizava com a ameaça de CC ( iniciais de “cheiro de corpo”, para informação de vocês, jovens insensatos, que acham que a palavra “cecê” deve ter vindo do latim ou do inglês)...” Mas o termo vem mesmo do inglês. A sigla é uma tradução do original: “B.O.”, que significa Body Odor.
Essa campanha agressiva começou nos Estados Unidos com historietas que mostravam como uma garota bonitinha não era tirada para dançar numa festa ou como o “cavalheiro” achava melhor escutar em outra sala as músicas de uma garota ao piano. Tudo por causa do “B.O.”.
E se você encontrar por aí algum texto ou alguém dizendo que o termo surgiu na década de 50, diga à pessoa que ela está equivocada. Os dicionários Aurélio e Houaiss datam o aparecimento de cecê – a palavra, não o fato em si – da década de 40, no que estão certíssimos. A primeira propaganda que ilustra este texto é de uma O Cruzeiro de 1947.
Escrito por Editor do Memória Viva às 17h21
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:: Crimes, jornalismo e História
Você viu o Linha Direta Justiça, na última quinta de setembro? Aquele que reprisou o caso da Fera da Penha. Eu trabalho com preservação da memória. Vivo revirando a vida de muita gente. Às vezes, gente que foi muito famosa e está esquecida; em outras, gente que gostaria de ser completamente esquecida. Linha Direta Justiça, segundo o anunciado, uma “série jornalística...”, aborda casos antigos. Todos já prescritos. A Fera da Penha cometeu um crime terrível. Matou uma criança de 4 anos - Tânia, na foto - e ateou fogo ao corpo. Foi condenada à pena máxima: 30 anos. Saiu com 15, por bom comportamento. Nunca havia feito nada parecido antes. Nunca fez nada parecido depois. Isso foi em 1960. A mulher que ficou conhecida como a Fera da Penha tinha 22 anos e descobriu que o namorado (pai de Tânia) era casado. Enlouqueceu e resolveu tirar do namorado o que ele mais amava: a filha. Ela foi libertada há quase 40 anos. Trabalhou, dedicou-se à atividades filantrópicas. Hoje tem 65 anos. Pergunto: você acha certo jogar uma história dessas em horário nobre, no canal de TV mais assistido do país, quando as partes envolvidas - ré confessa que pagou o estipulado pela Lei e parentes da garota assassinada - se recusam a falar sobre o assunto e não participam do programa? Imagine que VOCÊ fosse um dos personagens dessa história.
Enquanto você pensa, vou dar outra informação. Esse programa já havia sido exibido há exatos 11 meses. Foi reprisado porque o que estava para ser exibido - também sem consentimento ou participação de qualquer envolvido - foi impedido de ir ao ar. Também falava de um caso famoso, ocorrido há mais de 50 anos, que envolve uma morte, no qual o acusado também cumpriu pena... O que querem expondo um senhor que hoje tem 75 anos, que nunca cometeu um ato ilícito antes do episódio em questão, tampouco depois de solto e que, juram muitos, nem foi o culpado? Eu conversei com ele há poucos dias. O que querem expondo a família da vítima que guarda até hoje a dor de ter perdido um ente querido? Você já perdeu alguém muito amado? Em condições trágicas? Gosta de ficar falando sobre isso? Também conversei com familiares da vítima.
Que caso é esse? Quem são as pessoas? Não tenho direito algum de dizer. A não ser que elas permitam. Posso garantir que todas estão cansadas desse jornalismo sensacionalista, dos urubus que ficam voando ao redor da desgraça alheia. Essas histórias são muito maiores que a história pessoal de cada um dos envolvidos. Mas nem por isso alguém, alguma empresa ou veículo de comunicação pode se apoderar dela.
É preciso tratar pessoas como pessoas. Não como personagens. Estes são matéria para escritores, que podem manipular as histórias como bem quiserem. Jornalista lida com gente de verdade. Antes de mais nada, é preciso ter respeito.
Escrito por Sandro Fortunato às 08h19
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